AMAZONAS (hotel de floresta)
“Amazônia!!!”
Como gritaria o meu guia da SELVA TROPICAL, Wellington, enquanto suávamos às pencas no meio de uma densa floresta cheia de umidade para ver uma aranha caranguejeira sair do seu buraco, por estímulo dele, que havia esfregado seu suor na ponta de uma palha de palmeira do açaí pra atrair a curiosidade da aracnídea, através daquele cheirinho salgado do suor. Essa cena é impagável e incrível. O conhecimento da selva que uma pessoa que mora lá tem é impressionante e deixa um ser urbano feito eu de queixo caído.
Outra vez, presenciei um senhor de mais de 80 anos nas redondezas de Belém do Pará escalar uma palmeira de açaí usando apenas uma alça amarrada em seus pés; uma palmeira dessas pode chegar a altura de um prédio de 10 andares. Dali ele tira o seu sustento diário.
Fiz uma viagem em família, acompanhado do meu sogrão e da minha sogrona, além da esposa, da filhota (com 2 anos há época), e da cunhada que estavam nos guiando com MUITO ORGULHO por toda aquela região, pois conhecem muito bem cada recanto do Estado do Amazonas. A família morou muitos anos no norte brasileiro. Ama aquilo dalí. Anualmente voltam pra rever amigos, fazer trilhas e passeios na selva. Portanto, posso dizer que estava bem acompanhado por gente que conhece muito bem as belezas deste estado amazônico.
Após 1 ou 2 dias em Manaus para conhecer o básico da cidade (Teatro Amazonas, Mercado Municipal Adolpho Lisboa, Docas do Rio Negro), pegamos um transfer em Manaus que atravessou uma ponte longuíssima por cima do RIO NEGRO; é impressionante a largura do rio e a extensão da Ponte Jornalista Phelippe Daou. A visão da selva amazônica que cresce no entorno da região metropolitana e ainda reina soberana em toda essa área norte é de cair o queixo. Densa, verde, úmida, calorenta, cheia de bichos, mosquitos e seres aquáticos. Intransponível para leigos como eu.
Desembarquei na beira de um braço de igapó (região inundada que parece um grande lago com reentrâncias e muita vegetação no seu entorno), pouco antes da cidade de Manacapuru justo na época da cheia (a mais valorizada para esse tipo de passeio aquático que estou prestes a lhe contar), e pegamos uma VOADEIRA (barco estreito com motor de popa), que durante 40 minutos navegou por águas em que já de primeira avistamos botos subindo à superfície para respirar e mostrar sua lindeza.
Cheguei num hotel de selva no meio do nada. O nada é a linda selva amazônica. Pense numa coisa suntuosa. O hotel tinha boas instalações e um plano de pensão completa (todas as refeições incluídas). Os passeios de barco pra visitar comunidades ribeirinhas, navegar à procura de jacarés e outros animais diurnos e noturnos num safari aquático e pra visitar produtores de farinha de mandioca, geléia, produtos orgânicos também estavam todos incluídos no pacote do hotel. MUITOS DOS HOTÉIS DE SELVA operam assim. Não vou fazer referência ao que eu fiquei, pois não é digno de nota. As opções são inúmeras, pra todos os bolsos. Faça sua pesquisa! Ou então me manda uma mensagem no privado…
Todas essas comunidades que moram na beira do rio e no meio da floresta dependem do dinheiro do visitante/turista para sobreviver e merecem nosso carinho ($) e atenção. Suas histórias e conhecimentos sobre a selva, seus animais e os homens que habitavam tudo aquilo ali antes dos portugueses cagarem com tudo impressiona qualquer pessoa acostumada à selva urbana feito eu.
Minha filhinha estava com 2 anos quando fomos e foi das que mais gostou desse safari aquático pela AMAZÔNIA. Avistamos macacos que invadiram nossa voadeira à procura de comida. Botos cinza; infelizmente o boto cor de rosa, mais raro, não foi avistado. Vimos iguanas no alto da copa de árvores, vimos bichos preguiça, avistamos dos mais diversos tipos de pássaros.
Na nossa busca noturna por jacarés e outros bichos notívagos não encontramos nenhum “olho de gato”, isso é, os olhos dos bichos que refletem contra o holofote que o guia vai manejando nessa procura por vida selvagem. Foi frustrante, mas faz parte da vida e dos passeios à procura da vida selvagem. Acostume-se. Nesses passeios o imponderável de encontrar bichinhos ou não em seu habitat natural dá sempre uma emoção a mais.
Visitei uma família de ribeirinhos produtora de farinha de mandioca (aipim, macaxeira), goma, e todos os outros seus substratos. Nos explicaram as diferenças entre a mandioca brava e a mandioca mansinha (e já não me lembro mais as diferenças). Recebemos explicações sobre sua produção e pudemos provar uma tapioca feita na hora, fresquinha, inclusive com pedaços de castanha-do-brasil frescas que lembram muito o sabor do coco ralado na hora (só no estado do Amazonas a castanha leva o nome “castanha-do-brasil”, no resto do país, que eu saiba, é CASTANHA-DO-PARÁ). Uma delícia!
O topo da árvore da castanha-do-pará pode chegar a 50 metros. Sabe o que é isso? É o equivalente a um prédio de 16 andares! E as castanhas crescem dentro de um coco enorme. Imagine um coco desses cair na sua cabeça? Dentro do coco, no mínimo umas 20 castanhas-do-pará são encontradas. E pra descascar uma a uma, é necessário muita destreza e conhecimento prático com um facão em mãos. Dentro do coco da castanha elas ainda vem “embaladinhas” uma a uma! Dá bastante trabalho.
Não tive CORAGEM PRA MERGULHAR NAS ÁGUAS DO RIO NEGRO, pois ele é escuro e não é possível visualizar possíveis predadores como piranhas, jacarés, cobras, dentre outros. Sei que MUITAS PESSOAS mergulham nele sem nenhum receio. Mas eu não tive essa coragem toda. Passei minha infância e adolescência frequentando TAMANDARÉ E A PRAIA DOS CARNEIROS, e fiquei MUITO exigente em termos de cristalinidade de águas do mar e de rios. Cheque o post em que falo de Tamandaré e Carneiros aqui!
Acredito que foram 5 dias nesse hotel de selva. 3 dias completos com passeios pela manhã e pela tarde (as vezes, fim de tarde para pegar os animais com hábitos noturnos). Se ainda não foi ao norte do Brasil e não conhece nossa selva amazônica, está mais do que na hora de tomar coragem e investir nessa viagem! Nosso Brasil é gigante e cheio de paisagens, culturas, comidas e hábitos distintos. É muita riqueza num canto só.
A comida era boa, mas nem tanto. Em toda experiência de pensão completa de hotel que já participei, com o passar das refeições os pratos vão começando a ter o mesmo sabor da primeira refeição. Comi MUITO peixe, o que foi excelente. As espécies campeãs da preferência local são o tambaqui e sua onipresente costela e o lombo de pirarucu. Parece que o tambaqui é só costela (brincadeirinha, mas é a parte do peixe que mais se destaca em termos de sabor). Os dois são deliciosos, pois tem gordura entremeada em sua carne. Que riqueza! Nunca comi tanto peixe na minha vida! E peixe fresco, recém pescado. Pense num local em que o acesso ao peixe é MUITO mais fácil e menos caro do que para quem mora no resto do Brasil (inclusive no nosso amplo litoral).
Quero voltar lá mais vezes, quero tirar a mais ou menos má impressão que tive de Manaus (pq é caótica, suja, urbanisticamente confusa e ao mesmo tempo contém uma cultura rica e única), quero conhecer melhor seu povo, quero provar mais pratos típicos de lá, com ingredientes dos mais diferentes do que estamos habituados no restante do país.